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Navegar é preciso, viver não é preciso Essa frase é uma velha conhecida, mas essa semana a ouvi em uma situação que me fez refletir sobre o sentido que damos à vida e às coisas na qual acreditamos. Muitas vezes estamos conformados com as coisas, o trabalho, o salário no final do mês, as contas mais ou menos em dia, numa posição confortável, ou melhor, estável, em que a última coisa em que pensamos é navegar. Afinal, por que abrir mão de tudo aquilo, principalmente para apostar em um projeto coletivo... Jogar para o alto a vidinha mais ou menos, nem pensar. Mas que graça tem fazermos todo dia a mesma coisa, sem emoção, sem prazer, sem engajamento, sem vestir a camisa, sem estarmos satisfeitos – e satisfação pessoal tem de contar sim – em prol de uma tal estabilidade, de uma vida sem luta, sem acreditar em algo maior, sem navegar. Ah, quando as coisas perdem a graça pra mim, prefiro navegar a ficar ali naquele porto seguro e sem graça. E navegar, todo sabemos, não é fácil. Poderemos encontrar um mar calmo, sem onda, mas poderemos nos deparar com um mar agitado, com vento forte e, às vezes, com muita chuva, relâmpagos e trovoadas. E aí, para muita gente bate aquele arrependimento. Puxa, podia estar ali, são e salvo, em terra firme, mas, convenhamos, que graça teria? E não pensem que estou falando em aventuras, daquelas em que embarcamos em barcas furadas, sem coletes salva-vidas e com um comandante não habilitado. Estou falando na possibilidade de navegar, sim, mas não de se aventurar por aí, sem pensar nas conseqüências e sem o pé na realidade. Estou falando em não termos medo de mudanças. Na possibilidade de apostarmos em algo novo, de darmos uma guinada na vida, quando estamos ali acreditando que só nos resta esperar a morte chegar. Mas eu sei que não é fácil. Trocar o horário fixo: hora de chegar e sair, salário no final do mês, as mesmas tarefas todos os dias. Horário certinho para almoçar, passear no shopping, assistir ao Jornal Nacional e à novela das 8h. E por que mudar... Sair do que chamam de zona do conforto, já que mudar é mais trabalhoso, leva a questionamentos e inquietações. E as mudanças, todos sabemos, são sempre ameaçadoras. E isso dói, dá medo. E euzinha, não sou diferente. Mas Fernando Pessoa estava ali a nos ensinar que para viver é preciso navegar. Do contrário, qual é a graça? Mas o que dizer quando a nossa mudança envolve um projeto coletivo? Ah. É um Deus nos acuda. São rótulos e mais rótulos e o mais comum é o que chamam de loucos. Meu Deus jogou tudo para o alto! Meu Deus, o que essa pessoa quer se envolvendo com isso, podendo estar ali numa vida tranqüila e sem turbulências? Ah, mas que graça teria? Afinal, navegar é preciso.
Cleide Almeida é jornalista do Feira News cleidemaisfm@hotmail.com (75) 9136-2089
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