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O mito da lealdade masculina pOR: Cleide Almeida( Jornalista) Tenho ouvido falar com muita constância da famosa lealdade entre os homens, em contrapartida à competitividade entre as mulheres. É curioso como quando um assunto chama a nossa atenção parece que ele passa a ser mais mencionado. Sempre achei que na verdade é nossa atenção que se torna maior para o tema e ouve o que antes passava despercebido. Mas ultimamente tendo a apostar no acaso. O mesmo acaso que faz tocar no rádio, logo cedo, aquela música que veio à cabeça do nada e passamos o dia anterior cantarolando. Nunca aconteceu isso com você? Pois bem, a lealdade masculina volta e meia me aparece pela frente: é no cinema, em conversas com amigos e até num chat da Internet que entrei outro dia por puro exercício de “quebrar tabus”, já que odeio chats de Internet. Tenho pensado muito nisso e cheguei à conclusão que estamos diante de mais um mito: o mito da lealdade masculina. Como todos os mitos, este traz meias verdades e muitas outras verdades inteiras que se escondem no mais profundo túnel de submilinaridades. Passemos ao mito: homens são mais amigos entre si, porque são mais leais entre si. Homem que é homem não trai fácil o amigo, paquerando a namorada ou companheira do outro, afinal “mulher de amigo meu para mim é homem”, dizem todos, “e eu não sou gay”. E as mulheres? Estas até são amiguinhas, mas quando o assunto é namorar, vale dedo no olho e principalmente o namorado da melhor amiga. Haja competição! Esta é a meia verdade superficial que sustenta o mito. Mas o que está por trás, na minha opinião, é bem mais complexo. Homens não traem o melhor amigo por puro instinto animal. Pode parecer uma análise um pouco naturalista demais. Mas apesar de toda a evolução da espécie humana, continuamos agindo com o nosso instinto animal em quase todos os nossos desejos mais primários, entre eles o sexo. Do suricato (lembra o Timão, aquele amigo magrela e feioso do Rei Leão), ao próprio leão (o rei dos animais), todos os machos do reino animal mantêm um padrão de comportamento territorialista, marcado por um macho dominante, forte e geneticamente perfeito, que cruza com as fêmeas do bando. Os jovens machos têm que se contentar com o celibato ou com a possibilidade de formar outro bando. A exclusividade do chefe significa poder, não só o poder de comandar o bando, mas o de garantir a perpetuação de sua carga genética. A sociedade animal respeita o pacto, porque sem ele seria impossível saber de quem são os filhotes e tudo viraria uma bagunça. Nós, os humanos, é claro já inventamos o teste do DNA, o que permitiu uma bagunçadinha. Mas a nossa memória ancestral taí. Acho que os homens se respeitam mutuamente, porque guardam a lembrança do pacto pelo conhecimento da descendência. Nada a ver com amizade. As mulheres, ao contrário, competem entre si pela chance de ser fertilizada, mesmo com os métodos contraceptivos nos ajudando a manter a prudência. Tudo memória do tempo animal.
Tudo bem, o
homem e a mulher agem por instinto. Mas mesmo assim eles não são mais leais
que elas? Fala sério! Homem que é homem até fica solidário, mas nunca vai
formar uma confraria para passar a noite de sábado em casa vendo DVD com o
amigo que não pára de chorar, porque descobriu que a namorada estava com
outro. Se indignar com a tal namorada, chamá-la de cachorra, sentir
verdadeiro ódio e desprezo porque ela fez seu amigo sofrer, isso nem pensar.
E dispensá-la alguns dias depois, quando ela chega gostosíssima e insinuante
para ele, pedindo para ele não pensar no amigo, apenas no sexo quente que
eles podem fazer? Conhece algum que dispensaria de verdade, quando ninguém
está vendo? Podem até competir pelo namorado, mas quando alguma coisa dá errado, elas se juntam e se ajudam mutuamente, ocasionalmente contra o mesmo namorado que disputaram e dividiram no passado. Pensando assim, quem é mais leal? Aquele que respeita o território do outro, ou aquela que até compete, mas está com a outra para o que der e vier? No campo do sexo, nenhum dos dois. Afinal, o nosso instinto é acasalar e perpetuar a espécie. Mas no complexo universo das emoções humanas, talvez a lealdade masculina não passe de mais um mito que aceitamos sem perguntar o porquê.
Cleide Almeida é jornalista do Feira News cleidemaisfm@hotmail.com (75) 9136-2089
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