todos do mesmo lado

A miséria é uma dessas coisas que doem só de se ver. Claro que isso só os bons de espírito saberiam explicar. Ver pessoas sofrendo num filme, num jornal, na TV, agride a nossa personalidade egoísta. E egoísta somos sim por natureza. A mesma natureza que nos fez animais. Racionais, mas animais. Animais que brigam por comida, por espaço, pela prole. Daquilo que somos, apesar de parecidos em muito com nossos irmãos em bioquímica, nosso diferencial é o que nos mantém vivos. Claro, pois como sobreviveríamos neste nosso mundo sem o cuidado, e porque não dizer o afeto,  logo após o nascimento? E é dessa base emocional a que me refiro. E é a essa base emocional a que me reporto quando lembro da dor que é ver a miséria humana.

O sofrimento dói mais em quem sente, claro, mas dói também em quem o vê. Pois quem nunca sentiu uma vertigem ao ver em uma cena de filme que fosse, sangue jorrando de um corte fatal? Mas a vida não é filme. E nós não estamos aqui pra sofrer. Nem nós, nem a gente, nem os outros.

Falo de miséria e de sofrimento porque não é possível desvincular os dois. Não quando se fala de realidade humana. De situações em que a mãe fica sem comer para dar ao filho. Ou pior, quando o pouco que tem a dar não serve ao seu filho que sofre de um problema que ela não sabe explicar, mas que obriga seu filho a beber um tal de um leite que custa vinte vezes o preço de uma lata de ‘Ninho’. De onde tirar? Sinceramente eu não sei. Me pergunto e não encontro resposta. Temo pensar no pior. Mas o pior é que isso não é o pior. Tem coisas piores por aí. Por aqui. Por todo lugar. E nem precisa a gente procurar. O problema é querer ver. Querer resolver. E quem vai querer? Nós, a gente ou os outros?

Ninguém, minha gente, ninguém... a gente se acostuma com tudo... até com o desconforto que nos causa a miséria alheia. É triste, mas é a verdade. A responsabilidade não é ‘nossa’, ou de quem goste e compartilhe das nossas idéias. Não é ‘da gente’ ou de quem não goste daquilo que ‘a gente’ vê. E não é dos ‘outros’ que simplesmente não sabem do que se trata, porque não sabem de que lado ficar.  E todos ficamos assim: à mercê da nossa acomodação... Longe, bem longe, do que nos faz sofrer. 

 

Cleide Almeida é jornalista do Feira News

cleidemaisfm@hotmail.com

(75) 9136-2089

 

                                                   

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